O intelectual e a política

Miguel de Unamuno arriscou sua vida em 12 de outubro de 1936. Jogar com a própria vida não é apenas arriscar a morte; supõe também manter ou destruir uma trajetória.

Texto de Luis Garcia Montero.

Miguel de Unamuno arriscou sua vida em 12 de outubro de 1936. Jogar com a própria vida não é apenas arriscar a morte; supõe também manter ou destruir uma trajetória. Estava ele no auditório da Universidade de Salamanca, juntamente com as autoridades do recente golpe de Estado. Unamuno levava a sério sua consciência atormentada e sua Universidade, porque a consciência e a universidade são coisas sérias. Quando um professor servil de literatura, chamado Maldonado de Guevara, arremeteu contra os catalães e os bascos, citando o general galego Millán-Astray, gritou "viva la muerte", Miguel de Unamuno poderia ter se calado. Mas jogava-se com seu passado, e ele preferiu falar, pondo em risco o seu futuro.

Diante da exaltação patriótica dos discursos e proclames oficiais, com uma plateia cheia de falangistas e facções militares armadas com pistolas, ele pronunciou uma de suas mais famosas reflexões: " Vencereis mas não convencereis, vencereis porque têm força bruta de sobra, mas não convencereis, porque convencer significa persuadir. E para persuadir necessitais de algo que lhes falta nesta luta, razão e direito, parece inútil pedir que pensem na Espanha". Unamuno se havia deixado amar pelos falangistas, distanciara-se do governo republicano em 1936, mas o incauto espetáculo incivilizado de uns militares vendidos ao fascismo e ao nazismo fez com que se mantivesse firme, neste caso, contra a irracionalidade. A execução de seu discípulo, Salvador Vila, reitor da Universidade de Granada, foi a gota d'água.

Millán-Astray havia fundado a Legião em 1920, sob o grito "viva la muerte". Em 1924, ele perdeu em combate o braço esquerdo e, em 1926, o olho direito. Unamuno não o acusou em suas palavras de ser um inválido, ao invés, lembrou que Cervantes também o era, mas acusou Millán-Astray de estender uma disposição moral para converter em deficientes e mutilados a maioria dos seres humanos. O grito de Millán-Astray, "muera la inteligência", foi matizado por José María Pemán: "morram os maus intelectuais!". Eles não eram muito originais. Uma das frases mais famosas do nazismo, de autor incerto, foi "Quando ouço a palavra cultura, seguro a minha pistola".

Nesta Semana Santa, vi quatro ministros do PP cantarem o hino da Legião diante de um Cristo crucificado. Depois de manipular a dor dos crimes recentes para legitimar seu autoritarismo e desviar a atenção através das emoções dos debates políticos (corrupção, desmantelamento do público e desigualdade), é lógico que eles se voltem para o militarismo católico. Eu também vi milhares de pessoas nas ruas, chorando de emoção ao passar uma Virgem ou uma cruz. Saem de suas entranhas as lágrimas que não se derramam quando um ser humano passa fome ou se afoga no Estreito (de Gibraltar), um daqueles seres desamparados que pouco têm a ver com as ideias turísticas de religião e convivência. A solidão dos cristãos que trabalham por amor e em silêncio em favor das vítimas deve ser como a solidão de um intelectual parecido com Unamuno, em meio a uma sociedade dominada não pelo pensamento, tampouco pela experiência de vida das pessoas sem estudos, senão pela agressiva arrogância do novo analfabetismo consumista, cultivado no ódio contra a inteligência e a solidariedade. Cristãos e intelectuais têm a saída para suas dores de consciência e melancolias. Basta atuarem segundo sua ética, não renunciar a suas ideias, apesar do predomínio do espírito legionário que se estende através da indignação manipulada das redes sociais e dos grandes meios de comunicação, que estabelecem as linhas do jogo do poder. A emoção da própria ética é um refúgio frente às emoções coletivas que corroem as palavras, os valores e os sentimentos.

Muito mais difícil é para os políticos da esquerda. Se eles querem intervir na realidade para mudar as coisas, necessitam se conectar com as emoções coletivas . Um intelectual pode se dar ao luxo de falar a margem, abaixo ou acima das expectativas da realidade. Mas um político não. A valentia de um intelectual pode ignorar a prudência que um político precisa para agir. O intelectual denuncia problemas, o político busca soluções em uma dada realidade.

Entre o intelectual e o político, situa-se o escritor. Compor uma obra literária envolve inventar um leitor, imaginar alguém com quem você pode estabelecer uma conversa, viver uma história de amor ou uma aventura policial, fundar uma memória e um desejo de futuro.

Talvez essa seja a principal tarefa de uma política de esquerda. Não parece uma boa estratégia se deixar levar de um lugar para outro, de acordo com as circunstâncias. No meio ao vendaval de emoções programado pelo neoliberalismo com a articulação territorial da Catalunha e os crimes de prisão perpétua, quiçá resulte necessário buscar um interlocutor, um coletivo capaz de se mobilizar com emoções diferentes daquelas despertadas pelo hino da Legião.outro tipo de pessoas. A tarefa de procurá-lo é difícil, porque as elites contam hoje com a força bruta e os meios para convencer de suas razões. Unamuno se arriscaria hoje mais que ontem ao dizer "você não vai convencer". Isto há sido o grande desafio tecnológico do capitalismo.

 

Artigo publicado originalmente no infolibre, sob o título El intelectual y la política, escrito por Luis Garcia Montero.

 

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