O orgulho de ser analfabeto - Luis García Montero

"As sociedades de consumo e o avanço do capitalista cultivam a miséria cultural. É uma tendência que deteriora os valores da sociedade democrática. Trata-se de um mecanismo paradoxal que os poderes reacionários estão utilizando com muito eficácia para seu próprio benefício". Publicado originalmente no infolibre, com o título de El orgullo de ser analfabeto, no dia 01/10/2017.

(Publicado originalmente no infolibre, com o título de El orgullo de ser analfabeto, no dia 01/10/2017.)

As sociedades de consumo e o avanço do capitalista cultivam a miséria cultural. É uma tendência que deteriora os valores da sociedade democrática. Trata-se de um mecanismo paradoxal que os poderes reacionários estão utilizando com muito eficácia para seu próprio benefício. Chamam a participação do povo para diluir sua representação no grito e para apagar a consciência de classe. Deste modo, um milionário se transforma em um líder de uma regeneração social ou de uma causa popular, confundindo, com o dinheiro, o mal estar de suas próprias vítimas.

 

Sempre houve pessoas sem estudo. Mas, as culturas tradicionais hão sido, durante séculos, uma herança capaz de educar em comunidade. As relações com a vida, o amor, a morte, a memória e o futuro dependiam de um saber experimentado pelos anciãos, um saber com vontade de entrar nas ilusões e nos medos dos jovens. Se pensarmos bem, estudos e livros são uma parte a mais dos relatos da comunidade, uma ampliação da experiência dos iletrados. Neste sentido, o elitismo não é somente uma indecência democrática, senão também uma incompreensão do sentimento que sustenta a criatividade da arte e do estudo.

 

Contudo, a socialização, que hoje leva a cabo a telelixo, liquida esse apoio cultural às tradições. Acentua seu lado obscuro e conduz a possível rebeldia para um lugar que tem pouco a ver com a consciência de classe ou com a sabedoria de quem resiste. Se a dinâmica real das novas estratégias de socialização depende, sem filtros, do império do dinheiro, a lógica sentimental imposta se define pelo narcisismo e pelos instintos básicos. Só assim, explica-se a despudorada exploração das misérias íntimas nos espaços públicos. E, somente assim, podemos entender também um novo fenômeno: o orgulho de ser analfabeto. A suspeita que se projeta hoje sobre a política, a democracia, o Estado, os funcionários públicos e os sindicatos, alcança também o saber e a cultura. O que vai legislar um político ou me ensinar um sábio? A mim já não enganam. O narcisismo, muitas vezes, procura uma resposta única à indignação.

 

As evidentes insuficiências de um sistema que maltrata a maioria em benefício das elites não convidam agora à sua correção, à resolução dos problemas, senão a uma negação geral do status quo. O debate atual prefere tratar das causas em vez dos valores e das normas. Com uma lógica própria da telelixo, a vertigem dos instintos básicos substitui os diálogos por situações propícias ao rumor, à calúnia e aos gritos. A lei do mais forte se disfarça para consolidar seu rumo com as bandeiras da ruptura, novidade e afiada determinação. Como o cliente tem sempre a razão, perde-se o medo do mal e o respeito às leis. E perder o respeito às leis significa tanto não cumpri-las como deixar que apodreçam esvaídas de legitimidade.

 

A figura de Donald Trump representa bem as características e o alcance desta realidade. Claro que Hillary Clinton não era um quadro sem rachaduras, mas o orgulho do analfabetismo não conseguiu mudar a água suja da bacia sem atirar o corpo da dignidade democrática pela janela. O ruim foi substituído pelo pior: fanatismo, machismo, prepotência, mentiras e todo tipo de enfermidades contempladas pelo inferno civil. Não é um caso isolado. Na Europa, a extrema direita se olvida da catástrofe que Hitler encarnou e volta com força ao parlamento alemão.

 

Gente orgulhosa de seu analfabetismo saiu às ruas de algumas cidades para se despedir, com bandeiras da Espanha, dos guardas civis destacados para a Catalunha. A irresponsabilidade de mesclar uma bandeira nacional com um conflito social interno recorda cenas típicas do fascismo. Fraga Iribarne não necessita voltar, porque ele nunca se foi. Por outro lado, também há analfabetos orgulhosos que, em nome da Catalunha, maltratam os livros de Juan Marsé ou as canções de Joan Manuel Serrat, convertidos, da noite para o dia, em representantes do fascismo.

Nesta atmosfera, é muito difícil um diálogo sereno entre pessoas partidárias do processo de independência da Catalunha e pessoas que preferem uma articulação territorial que não chegue à ruptura. Nem sequer podem discutir, em condições de cultura democrática, aqueles que apoiam ou rechaçam a celebração de um referendo sobre a autodeterminação.

 

Está difícil, entretanto devemos impedir que a atuação do analfabetismo orgulhoso protagonize as situações. Devemos pensar ou inventar outras atitudes e palavras que corrijam os escritos do poder desde outra perspectiva e com um orgulho democrático.

 

 

Sobre o autor: Luis García Montero, nascido em Granada, 1958. Poeta e Catedrático de Literatura Espanhola na Universidad de Granada. É autor de onze livros de poesia y vários de ensaio. Recebeu o Prêmio Adonáis, em 1982, por El jardín extranjero, o Prêmio Loewe, em 1993, e o Prêmio Nacional de Literatura, em 1994, por Habitaciones separadas. Em 2003, com La intimidad de la serpiente, foi merecedor do Prêmio Nacional de la Crítica.

 

Sobre infolibre.es: uma proposta informativa e cívica que nasce num momento em que a crise econômica ameaça a democracia e o jornalismo, cada vez mais subordinados aos interesses do poder econômico e financeiro.

Tradução autorizada pelo autor: Edmilson de Jesus

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