O orgulho de ser um elitista - Luis García Montero

É necessário continuar a defender firmemente os direitos humanos e os valores democráticos, a importância das instituições e a credibilidade do diálogo político; mas sem perder de vista o fato de que direitos, valores, instituições e políticas estão situados em meio a conflitos e assumem obrigatoriamente uma posição.

(Publicado originalmente no infolibre, com o título de El orgullo de ser un elitista, no dia 08/10/2017.)

É verdade que o populismo dos eleitores do Trump, por exemplo, marca um processo corrosivo. Empurra as pessoas para indignação e lhes dá protagonismo ao custo de desarticular sua representação política e apagar sua consciência de classe. Contudo, se queremos analisar o que está ocorrendo em nosso mundo, faz-se também necessário advertir que existe um senso comum, responsável, culto, orgulhoso de seu elitismo intelectual, que, ao mesmo tempo, abandona a sua consciência de classe para conceber como valores democráticos absolutos aquilo que se adapta as suas possibilidades econômicas ou aos seus apetites sentimentais.

Tenhamos algo em conta: as pessoas têm razões para estarem indignadas. O populismo furioso (a mansidão furiosa) é inseparável do capitalismo autoritário. E não me refiro ao surgimento de personagens como Trump ou Rajoy (Espanha), senão a umas regras anteriores do jogo, a lógica neoliberal que provoca uma desigualdade cada vez mais grave e um vazio sentimental condenado a se proteger na agressividade do “nós contra eles”.

Não é preciso se aprofundar muito para saber que vivemos em um mundo global que apagou as fronteiras dos Estados em nome do capital especulativo. Porém, não gerou, ao mesmo tempo, um novo tecido de controle democrático capaz de velar pelos interesses das maiorias sociais. Isso se relaciona de forma intima com às mudanças de caráter cultural. A nova realidade é inevitavelmente cosmopolita, já não apenas para uns imigrantes isolados, senão também para amplos movimentos migratórios e códigos de novas redes de comunicação. Quando a insegurança econômica da avareza capitalista impede uma cultura dos direitos humanos e do diálogo, o multiculturalismo se converte em uma ameaça para os nossos valores, quer sejam alguns postos de trabalho, quer seja uma identidade nacional.

Não se pode olvidar que existem situações concretas de exploração que se convertem em um admirável exercício de consciência política ou em um luxo de classes médias na defesa de valores humanos fundamentais. Convém não ignorá-lo e não desatentar da verdade que se encerra em alguns sintomas. Quando um trabalhador francês odeia a um marroquino, por roubar a sua qualidade de vida, ele não só evidencia um sentimento racista. Está nos dizendo outras coisas: o bem-estar capitalista é insustentável no mundo em que vivemos, o planeta não dá para muitos mais, é impossível regressar ao bem-estar anterior, a riqueza de uns vem da impiedosa exploração de outros.

A crise econômica europeia e o neoliberalismo galopante só democratizaram a pobreza. De um Primeiro Mundo que entraria no Terceiro Mundo para solucionar a miséria, passamos para um Terceiro Mundo que há entrado no Primeiro com todo seu testemunho de dor e impotência. Agora, vemos claramente o monstro da exploração, a impiedade do desamparo e da fome. A educada e sensata prudência dos homens de Estado perde todo o crédito, porque as sequelas de sua democracia formal e exploração econômica estão aí, no próprio bairro, nas portas das escolas, nos postos de trabalho, nas insônias, nos amores e nas doenças.

É necessário continuar a defender firmemente os direitos humanos e os valores democráticos, a importância das instituições e a credibilidade do diálogo político; mas sem perder de vista o fato de que direitos, valores, instituições e políticas estão situados em meio a conflitos e assumem obrigatoriamente uma posição. Na Europa e nos EUA, por muitos anos, pessoas, bancos e grandes multinacionais se opuseram.

O dinheiro não tem pátria. É patética, por exemplo, a alegria demonstrada pelo nacionalismo espanhol diante do anúncio solene da La Caixa, do Banco de Sabadell, da Gas Natural e de outras grandes empresas: mudam sua sede para fora da Catalunha. Bem, seguirão nos despejando e explorando de outro lugar sem pátria, como antes. Do mesmo modo, o nacionalismo catalão estava corando quando afirmou que "a Espanha nos rouba", como se o dinheiro gerado na Catalunha tivesse pátria, como se fosse um ato de roubo a possibilidade de organizar uma distribuição social do dinheiro, através dos impostos.

Outro exemplo. Denunciar a chegada maciça de imigrantes andaluzes ou dominicanos, como um perigo para a permanência cultural catalã, é tão reacionário quanto contestar, como fez o Ministério da Educação da Espanha, as políticas dirigidas pelo Governo catalão, para defender e consolidar uma língua de 10 milhões de falantes. No vórtice da globalização, vale a pena preservar aquilo que consolida uma tradição rica e uma comunidade. Pode-se conseguir isso sem renunciar à construção de um mundo democrático e sem fronteiras? Deve ser tentado, embora muito difícil de conseguir, em um capitalismo autoritário que gera populismos furiosos.

 

O intelectual democrático, uma figura desesperada hoje, necessita ser consciente dos perigos de seu elitismo para poder estar junto às pessoas. Porém, ao mesmo tempo, adverte que não pode se identificar com as dinâmicas de rancor e medo, que acabam dando a liderança a pessoas como Mariano Rajoy e Artur Mas ou entidades como La Caixa (Caixa Espanha de Investimentos) e o Banco de Sabadell.

Esse desespero não pode ser acalmado por
nenhum sábio, nenhum saber abstrato. Necessita-se de uma ilusão política que tire as pessoas do rancor e as torne cúmplices, no seu trabalho, na sua sala de estar, no seu tempo livre, na sua poesia e nas suas alcovas, de uma ideia muito mais simples do que a loucura em que vivemos: outro mundo é necessário.

___________________________________________________

Sobre o autor: Luis García Montero, nascido em Granada, 1958. Poeta e Catedrático de Literatura Espanhola na Universidad de Granada. É autor de onze livros de poesia y vários de ensaio. Recebeu o Prêmio Adonáis, em 1982, por El jardín extranjero, o Prêmio Loewe, em 1993, e o Prêmio Nacional de Literatura, em 1994, por Habitaciones separadas. Em 2003, com La intimidad de la serpiente, foi merecedor do Prêmio Nacional de la Crítica.

Sobre infolibre.es: uma proposta informativa e cívica que nasce num momento em que a crise econômica ameaça a democracia e o jornalismo, cada vez mais subordinados aos interesses do poder econômico e financeiro.

 

Tradução autorizada pelo autor: Edmilson de Jesus

Le Club est l'espace de libre expression des abonnés de Mediapart. Ses contenus n'engagent pas la rédaction.