Na Áustria, direita e extrema-direita ganham as eleições legislativas

Depois das vitórias da direita na Polônia e na Hungria, após as recentes eleições na Alemanha e na França, as eleições austríacas reforçam, por sua vez, os campos conservadores e xenófobos na Europa.

Artigo publicado originalmente por Amelie Poinssot, 16/10/2017, "En Autriche, droite et extrême droite remportent les législatives".

Uma maré reacionária. Após uma campanha inteira contra a presença migratória na Áustria, o partido conservador ÖVP, liderado pelo jovem Sebastian Kurz, ganhou a eleição no domingo 15 de outubro: ele domina as pesquisas com 31,4% dos votos. Atrás dele, vieram dois partidos, ambos defendendo teses semelhantes sobre a imigração. Mais de um, em cada quatro eleitores, votou na extrema-direita FPÖ, 27,4%. O Partido Social-democrata, a formação histórica e fundadora do bipartidarismo austríaco, foi relegado para o terceiro lugar, com 26,7% dos votos.


No entanto, esses resultados ainda devem ser
confirmados (nesta) segunda-feira, na contagem das cédulas por correspondência (900.000 votos no total), cuja contagem ainda está em andamento. É verdade que a diferença criada pelo ÖVP não deverá mudar muito, mas os segundos e terceiros lugares, relativamente apertados, ainda podem ser revertidos. Em qualquer caso, os possíveis cenários para o futuro executivo não são muitos: o ÖVP não tem escolha. Para governar, terá de optar em se aliar com o SPÖ (sociais democratas) ou com o FPÖ (neofascistas). A primeira configuração é improvável, já que a "grande coalizão" está há mais de uma década no poder. Foi precisamente essa aliança que provocou, na primavera passada, sob o impulso de Sebastien Kurz, essas eleições antecipadas. Resta a formação de um executivo com a FPÖ - opção à qual o jovem líder do campo conservador sempre esteve aberto. Juntos, esses dois partidos poderão contar com 113 assentos no Nationalrat, a Assembléia Nacional Austríaca, que possui um total de 183 deputados.

A tendência anunciada pelas eleições presidenciais do ano passado, que viu a extrema
-direita participar, pela primeira vez, na segunda rodada, é confirmada: o FPÖ se tornou um partido-chave na arena política austríaca e as portas do poder agora estão abertas para ele. Porém, a comparação com as eleições presidenciais param por aí, porque também mostra, paradoxalmente, a volatilidade de uma parte do eleitorado austríaco e a confusão nos rumos da disputa política. As mesmas pessoas que elegeram um Presidente Verde em 2016, um ano depois, eliminaram os Verdes do Parlamento: os "Grünen" não terão assento, pela primeira vez em 31 anos - mesmo com a novidade de uma lista dissidente, liderada por Peter Pilz, ex-Verdes, faça sua entrada para a assembleia.


Os resultados mostram que Carinthia, o
Estado de origem de Jörg Haider, no sul do país, é definitivamente a fortaleza do FPÖ: o partido de ultradireita é líder, superando por mais de quinze pontos o SPÖ, exceto em Viena - um bastião social-democrata tradicional - e no Burgenland (o leste do país, onde governa em coalizão com o FPÖ). Em todos os outros Länder (Estados), é o partido conservador que ocupa o primeiro lugar. E é no Tirol, região fronteiriça da Caríntia, que ele fez sua melhor pontuação, com 38,6% dos votos.


No total, os conservadores e a extrema-direita
acumularam quase 60% dos votos, aguardando os votos por correspondência. Para o campo progressista, é a derrota. Como o cientista político Laurenz Ennser-Jedenastik, da Universidade de Viena, aponta em um tweet, “todas as forças austríacas de esquerda tiveram a menor votação, desde o período pós-guerra”.


O SPÖ conseguiu, no entanto, limitar a quebra
deira ao se manter ao nível de seu desempenho de 2013, que foi de 26,82% dos votos. Mas o ÖVP e o FPÖ tiveram, cada um, um aumento espetacular de sete pontos em relação à última eleição legislativa. De acordo com a análise de saída do Instituto SORA / ISA, publicada pelo jornal Der Standard, o voto de extrema-direita teria se beneficiado do silêncio das vozes de antigos eleitores socialistas, mas também de ex-abstencionistas. Em geral, a participação, que foi mais forte neste ano do que em 2013, beneficiou o campo social-democrata, os conservadores e a extrema-direita. Entretanto, das três forças, é o FPÖ quem mais amplia sua base eleitoral. "De agora em diante, o FPÖ está quase tão forte quanto nos dias de Jörg Haider, quando, em 1999, chegou perto de atingir 27% dos votos. Se adicionarmos a isso a pontuação do ÖVP, o país foi varrido por um gigantesco redemoinho à direita", lê-se esta segunda-feira, 16 de outubro, no Der Standard.


Pela primeira vez em 15 anos, o ÖVP liderou as eleições nacionais. Para o jovem líder do Partido Popular Austríaco, é, sem dúvida, uma vitória pessoal. Ele não só parou a queda
em que seu partido havia mergulhado e surpreendeu aqueles que previam seu fim em 2013, mas também conseguiu tornar sua idade jovem (31) um trunfo para ganhar a Chancelaria e assim se tornar o líder europeu mais novo. Toda a estratégia eleitoral de Sebastian Kurz foi, de fato, baseada na ideia de renovação. Mesmo que ele próprio não seja novato na política - filiado aos conservadores austríacos 16 anos, sendo 7 anos como membro do executivo - ele não teve descanso durante a campanha para buscar encarnar a renovação. Como Emmanuel Macron, ele promoveu candidatos da sociedade civil, personificou o partido e falou de um "movimento" ao invés de um "partido". O ÖVP foi renovado (cor turquesa em vez do preto tradicional) e renomeado ("Lista Sebastian Kurz"), presente nas redes sociais com um discurso vago e atrativo, ele conseguiu emplacar: a hostilidade em relação aos migrantes e o fechamento das fronteiras austríacas.


Es
tas eleições marcam a triste vitória das teses mais hostis à imigração. "No entanto, é necessário explicar o porquê do uso tão forte de palavras duras para com os diferentes, escreveu nesta segunda-feira de manhã, a editora Irene Brickner, no Der Standard. O SPÖ rapidamente se dividiu sobre esta questão. E os divergentes discursos dos Verdes, muitas vezes, agiram como palavras de resistência em um sistema dominado por uma direita quase hegemônica. “O problema reside na falta de cultura de discussão em nosso país. Uma cultura de discussão que teria requisitos de precisão e concentração em fatos”. O editorial do Der Standard ainda cita Sebastian Kurz e o líder do FPÖ, Heinz-Christian Strache, ambos ignoravam costumes, leis e convenções internacionais quando se referiam aos chamados demais refugiados na Áustria .


Houve poucas reações após os primeiros resultados no domingo à noite. Um modesto encontro espontâneo ocorreu em frente ao parlamento em Viena
de um coletivo chamado "Tag X" ("Dia X"), agrupando antifas (grupos antifascistas) e esquerdistas radicais austríacos, convocando uma manifestação de oposição para o dia em que a coalizão com a extrema-direita for anunciada.


Na Europa, por enquanto, um silêncio solene. Apenas o Congresso Judeu Europeu (EJC) felicitou Kurz e, ao mesmo tempo, pediu que não formasse um governo de coalizão "com um partido de extrema-direita". "Um partido que defendeu um programa de intolerância xenófoba, que ataca imigrantes não pode ter um assento na mesa do governo", disse o presidente da organização, Viatcheslav Moshe Kantor.


Depois da
s vitórias da direita na Polônia e na Hungria, após as recentes eleições na Alemanha e na França, as eleições austríacas reforçam, por sua vez, os campos conservadores e xenófobos na Europa.

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