Sob a Luz das Palavras

On livre ici tout purement, dans sa version originale, dans le "bruit de sa langue", cette splendide définition de la singularité du fait littéraire par Claudio Santana, artiste et homme de culture brésilien.

 

 © Claudio Santana © Claudio Santana

Rezam algumas lendas que o ofício da escrita é a mais solitária das artes. Faz sentido. O processo de escrita criativa é por si um exercício insociável e esquivo, posto que, seja qual for a voz interior, é necessário algum silêncio do lado de fora. Mas de certa forma esta distância serve a todos os artistas e para as mais diversas interfaces. Talvez a solidão do escritor advenha sorrateira por outro lado, pelo fato de que sua obra, quando fruída, também é feita de forma solitária.

O leitor precisa imaginar tudo sozinho. Uma música entra no ouvido, uma foto entra nos olhos, o cinema entra em tudo, e são experiências sociais. Mas ler é pensar sozinho, é reinventar para si todas as coisas que ocupavam a mente de quem escreveu, cheirar, tocar, provar a narrativa, dar-lhe corpo. E nesse espaço-tempo da fruição já não existe mais o autor: a voz tornou-se interpretação do outro, a narrativa não pertence mais a quem a criou, mas ao mundo a que deu luz.

E o autor se vai, como deve ser. Tem cara, tem fome, tem sono, obsessões e desejos e problemas (todo bom escritor tem, ao menos, um problema, um desejo ou uma obsessão, senão não fazia – quem escreve, se não é insatisfeito, é desacorçoado), mas o autor sabe que seu espaço-tempo foi o da escrita, e o texto lido deixou de ser seu, é do outro.

Para o leitor, contudo, a fruição é identidade e acumpliciamento, e ao reinventar as imagens oriundas da cabeça do autor, sobrevêm ao natural uma vontade genuína de conhecer quem fez aquela narrativa que tornou-se sua. Olhar nos olhos da cara de quem transformou alguma forma de ver o mundo é encontrar pertencimento, tornar-se igual, e por isso maior.

Ler é apropriação do mundo. É ter a capacidade de ser imortal por pertencer a um pacto maior. É ter acesso à esperança de ser amado na mais completa singularidade. É, talvez por toda solitude, a possibilidade de se comunicar visceralmente e por isso sentir-se parte, cúmplice, mesmo que seja por alguns instantes, mesmo na distância do espaço-tempo, mesmo anônimo, mesmo que, como diria o replicante, nossas memórias fossem como lágrimas perdidas em meio à chuva.

E por isso é preciso dar rosto, carne, toque para nossos autores. É preciso percebê-los humanos, tirá-los das bolhas, trazê-los para o dia a dia, no espaço coletivo do agora, iluminá-los em nossos olhos e dentes e apresentá-los aos amigos, não como um fardo de papel, mas como gente parecida, como amantes. Precisamos, no limite, sequestrar nossos escritores para uma mesa de bar, um café, um instante, um espaço concreto em que se comungue a vastidão humana, e a agridoce solidão de quem teima em dar-lhe voz.

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