Mediapart apoia os jornalistas brasileiros perante as mentiras de Bolsonaro

O post de um assinante do Mediapart foi usado pelo presidente do Brasil Jair Bolsonaro para tentar desacreditar as investigações sobre a sua equipa. Estamos reiteradamente solidários com as investigações dos jornalistas brasileiros, sabendo que as afirmações deste post são falsas.

Assinante do Mediapart desde 27 de dezembro de 2018, Jawad Rhalib é um cineasta documentarista belgo-marroquino residente na Bélgica (v. site da produtora e o seu último documentário, Au Temps où les Arabes dansaient (No tempo em que os Árabes dançavam). Como qualquer assinante do nosso jornal colaborativo, Jawad Rhalib dispõe de um bloque onde já publicou oito posts, beneficiando da grande liberdade de expressão que deliberadamente oferecemos a posteriori, salvaguardando o respeito pelo nosso Regulamento de participação.

Distanciando-se do cinema e da produção das suas próprias obras, publicou rapidamente um post de inspiração conspirativa atribuindo um papel secreto a Georges Soros e à sua fundação no despoletar de revoluções e sublevações populares, nomeadamente árabes e africanas – temática apreciada pelas redes conservadoras e reacionárias. Posteriormente, no dia 6 de março, sob o título «Où va la presse?» (Para onde se dirige a imprensa?), publicou um post onde criticava as investigações dos jornalistas brasileiros sobre o filho do novo presidente de extrema direita, Jair Bolsonaro.

Quatro dias mais tarde, a 10 de março, este post foi reproduzido pelo Terça Livre, site apoiante de Jair Bolsonaro, e imediatamete divulgado pelas poderosas redes digitais da direita e da extrema direita brasileiras. Aliás, a imprensa local revelou que os administradores de páginas de Facebook favoráveis a Bolsonaro durante a campanha presidencial foram posteriormente nomeados para vários cargos no governo ou como assessores parlamentares. Quanto ao autor do artigo do Terça Livre, trabalha, desde 2 de fevereiro, para um deputado do PSL, o partido de Bolsonaro.

A partir desse momento, os ânimos cibernautas brasileiros inflamaram-se, ateados pelo próprio presidente que postou o tweet que poderá consultar em baixo, transformando numa tempestade mediática nacional a publicação de um simples post na plataforma da Mediapart (ler aqui o resumo noticioso da agência France Press) :

Le tweet du président du Brésil

Porquê este destaque fulgurante de um discreto post francófono, publicado na Bélgica no Club de um jornal online francês que tem mais de dois mil blogues permanentemente ativos? A resposta encontra-se evidentemente no seu conteúdo, totalmente parcial, de raciocínio tendencioso, com afirmações falsas e conclusões erróneas.

Afirmando basear-se num «inquérito sobre as reações dos media face ao novo líder brasileiro», o seu autor apoia-se na gravação de uma conversa em inglês com a nossa colega Constança Rezende do jornal O Estadão de São Paulo, um dos quatro principais jornais diários do Brasil. Recolhida por uma fonte que apresenta como sendo «um estudante de uma famosa universidade britânica», esta gravação, diz Jawad Rhalib, «revela que a verdadeira motivação por detrás da cobertura mediática negativa é a de “arruinar” o presidente Jair Bolsonaro e provocar a sua destituição».

Publicando simultaneamente a transcrição e os registos áudio deste conversa em inglês, o autor do post tira a seguinte conclusão: «Este estudo de caso sobre a forma como os media brasileiros politizados tratam a informação revela que não se interessam pelos factos reais, mas apenas utilizam histórias negativas, frequentemente inventadas, sobre a família do presidente Bolsonaro, que foi eleito democraticamente». O autor, mais conhecido como cineasta do que como jornalista, reforça: «Sejamos claros: não sou apoiante de Bolsonaro, mas penso que usar o poder dos media para atacar um presidente através do seu filho é uma atitude rebuscada e inaceitável para o jornalista que sou».

Quer esteja de boa fé ou coagido, em qualquer dos casos, o nosso assinante, cujas intenções e informadores não conhecemos, fala sem conhecimento de causa. A investigação dos media brasileiros visada no seu post é na verdade totalmente legítima, tem fundamento deontológico e é necesssária do ponto de vista democrático. São verdadeiramente os factos reais que estão no centro das investigações jornalísticas sobre o senador Flávio Bolsonaro, um dos filhos do novo presidente do Brasil. Aliás, através do nosso correspondente no Brasil, Jean-Mathieu Albertini, o Mediapart publicou, no dia 25 de janeiro, um artigo de fundo sobre as suspeitas de corrupção que recaem sobre o filho mais velho do presidente brasileiro, desde então no centro de um escândalo financeiro que envolve o seu antigo assessor parlamentar.

Além disso, os excertos da conversa divulgados online por Jawad Rhalib não permitem em momento algum tirar a conclusão perentória de que a jornalista brasileira Constança Rezende estaria a investigar o filho do presidente com o objetivo de «arruinar o presidente Jair Bolsonaro e provocar a sua destituição». A nossa colega limita-se a analisar, abertamente, as consequências políticas das suas revelações, tal como nós fazemos frequentemente no Mediapart, evocando o impacto democrático ou judiciário das nossas informações.

Num inglês inseguro, ela apenas diz que «o caso pode comprometer Bolsonaro» mas nunca diz que trabalha «para arruinar Bolsonaro», ao contrário do que afirma o post de informação falsa. O seu trabalho é de tal forma legítimo que nunca indicia qualquer motivação oculta: ela apenas investiga sobre um caso possivelmente comprometedor para o presidente do seu país, baseando-se em documentos oficiais, e nunca em informações inventadas como sugere Jawad Rhalib.

A tradução é, portanto, falsa e as conclusões apresentadas no post não se baseiam em qualquer facto concreto. É igualmente falso o título dado à sua republicação no Terça Livre: «Bomba: jornalista do Estadão confessa: “A intenção é arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”». Esta frase nunca foi pronunciada. E são estes elementos de linguagem que Jair Bolsonaro retomará no Twitter, partilhando o áudio da jornalista com legendas em português editadas pelo Terça Livre que, mais uma vez, não correspondem ao que a Jornalista disse durante a conversa.

Jair Bolsonaro descreve na legenda do seu tweet: «Querem derrubar o governo com chantagens, desinformações e vazamentos». Denunciando uma suposta conspiração da imprensa, o presidente referiu-se especificamente à jornalista e ao seu pai também jornalista, que nada tem a ver com a gravação mas que está a efetuar uma investigação sobre as milícias, algumas das quais poderão ter ligações à família Bolsonaro.

Inspirando-se em Donald Trump, não é a primeira vez que Bolsonaro ataca a imprensa, mas é a primeira vez que há jornalistas diretamente visados. A intenção é minar a credibilidade dos jornalistas e dos media que investigam o clan e o governo de Bolsonaro. Os apoiantes de Bolsonaro falam de «uma extrema imprensa» que seria «comandada pela esquerda». No entanto, o Estadão apoiou o candidato Bolsonaro durante a campanha. Constança Rezende, cuja fotografia surge no tweet do presidente, foi, no seguimento destes factos, vítima de ameaças.

O Regulamento de participação do Mediapart, que todos os assinantes se comprometem a respeitar no momento da sua inscrição, repudia a difusão de «notícias falsas». Feita a respetiva análise, o post de Jawad Rhalib revelou ser uma notícia desse tipo, pelo que foi retirado pela nossa redação e o seu autor foi devidamente informado. No entanto, dada a dimensão da polémica gerada no Brasil durante vários dias, e para que cada um possa formar a sua opinião, decidimos anexar a este comunicado o post em PDF. ( (pdf, 59.6 kB))

Nas redes sociais, já manifestámos a nossa solidariedade com Constança Rezende e com todos os jornalistas brasileiros que corajosamente prosseguem o seu trabalho diante de uma presidência autoritária, determinada a abafar e a desacreditar as informações que considera incómodas.

Le tweet de solidarité de Mediapart

Le texte original, en français, est ici. La traduction en portugais a été assurée par Isabel Petterman.

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