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Le Club de Mediapart jeu. 28 juil. 2016 28/7/2016 Dernière édition
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Demagogia política quer transformar caso Pulse em luta contra muçulmanos (ZH Caderno ProA 17/06/2016)

À propos du blog
Muitas feministas muçulmanas e associações LGBT árabes lutam por igualdade no seio de sua própria tradição muçulmana, como têm feito e continuam fazendo milhões de gays no mundo ocidental: O atentado cometido na Pulse, a discoteca gay da Flórida, traz à luz, brutalmente, um tipo de homofobia que acreditávamos pertencer a outros tempos. Certamente, sempre houve no Ocidente uma homofobia permanente que passou de norma religiosa a norma jurídica e, mais tarde, a norma clínica. O homossexual foi, assim, perseguido pela religião, pelo direito e pela medicina durante séculos. O pano de fundo teológico que permite ler o massacre de Orlando toma hoje a forma do terrorismo islâmico, mas tem raízes comuns com a tradição judaico-cristã. O Antigo testamento sentencia: "Quando também um homem se deitar com outro homem, como com mulher, ambos fizeram abominação; certamente morrerão; o seu sangue será sobre eles" (Levítico, 20:13); São Paulo, no Novo testamento, diz: "Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não erreis: nem os devassos, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os sodomitas (...) herdarão o reino de Deus" (1 Coríntios, 6:9-10). A história de Sodoma e Gomorra é comum à tradição monoteísta, inclusive à do Islã. O Alcorão também afirma: "Se dois dos vossos a cometerem, castiga a ambos severamente", ou "matai àqueles que cometerem o ato do povo de Lot".Contrariamente ao mundo greco-romano, as civilizações monoteístas são caracterizadas pela condenação da homossexualidade, mas têm sido atravessadas por períodos de tolerância. Na literatura e na poesia clássica árabe, é celebrado com frequência o amor entre homens, e em As mil e uma noites lê-se: "Então eu vi sair do barco, no meio dos escravos, um venerável ancião, tão magro e encurvado pelos anos e pelas vicissitudes que apenas assemelhava-se a a um ser humano. O xeique segurava pela mão um jovem muito bonito, realmente modelado no molde da perfeição, ramo terno e flexível, cuja aparência cativou meu coração e agitou a polpa de minha carne". O principal inimigo do fundamentalismo islâmico é uma cultura muçulmana que coincide com o velho mundo ocidental naquilo que Foucault veio a chamar de Ars erotica. A Pulse representa um estilo de vida que os fundamentalistas odeiam: era ao mesmo tempo um lugar de diversão e um espaço militante frequentado por gays, lésbicas, transsexuais, drag queens, travestis, latinos, gays muçulmanos... A Pulse se chama assim em homenagem a John Poma, que morreu em decorrência da aids, em 1991. Sua irmã Bárbara, cofundadora e coproprietária, queria com essa palavra, pulse ("pulso"), imaginar que o coração de seu irmão seguia batendo.Os homossexuais são, com os judeus, os principais inimigos do Estado Islâmico, que aplica as sentenças de morte de formas terríveis. Muitos dos Estados que dizem lutar contra o EI, como Arábia Saudita, punem com morte a homossexualidade, partilhando a violência homofóbica. Ironia da história: muitas das regras que criminalizam os gays no mundo árabe são resultado do colonialismo britânico e não da tradição muçulmana. A homofobia social e de Estado se espalha como um câncer, e jovens muçulmanos que desprezam, perseguem e agridem gays e lésbicas não sabem que, assim, estão destruindo uma tradição secular que permitiu acolher muitos homossexuais ocidentais em países como Tunísia ou Marrocos quando a perseguição era implacável na Europa. A demagogia de políticos do Ocidente, homens e mulheres, tem instrumentalizado a luta contra a homofobia, que se converte em um combate à minoria muçulmana. Curiosamente, os mesmos políticos de extrema direita que lutaram contra a igualdade de direitos para os LGBT declaram hoje querer proteger essa minoria da barbárie muçulmana. Esta é a armadilha na qual não devemos cair: crer que o Islã é contrário à homossexualidade. Certamente é, mas não mais nem menos do que o judaísmo ou o cristianismo (em todas as suas formas: católicos, protestantes, ortodoxos). Assim como essas religiões têm sido atravessadas por movimentos críticos internos e externos, muitos intelectuais, muitas feministas muçulmanas e associações LGBT árabes lutam por igualdade no seio de sua própria tradição muçulmana, como têm feito e continuam fazendo milhões de gays, lésbicas, bissexuais, transexuais, travestis, intersexuais do mundo ocidental para atacar ou fazer evoluir as interpretações católica, protestante, evangélica, ortodoxa e judaica da homossexualidade.As principais vítimas do Estado Islâmico e das teocracias islâmicas são os muçulmanos que aspiram à liberdade e, em particular, a minoria LGBT. A implementação de uma estratégia internacional de combate à homofobia nos países árabes deve primeiro ouvir as vítimas para saber como intervir de modo eficaz. É necessário que o direito de asilo com base na orientação sexual seja de fato respeitado, para que os pedidos de proteção política sejam tratados com seriedade pelos juízes das nossas democracias e possam, assim, salvaguardar a vida de centenas de milhares de pessoas provenientes de países árabes que batem à porta dos nossos Estados supostamente gay friendly.